8# ARTES E ESPETCULOS 22.1.14

     8#1 CINEMA  OS DONOS DO MUNDO
     8#2 LIVROS  AS GAFES E AS GALHOFAS
     8#3 MSICA  VISLUMBRES DE ETERNIDADE
     8#4 VEJA RECOMENDA
     8#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  POR UNS PELOS A MAIS

8#1 CINEMA  OS DONOS DO MUNDO
O Lobo de Wall Street  a mais eletrizante e explosiva das cinco parcerias entre Leonardo DiCaprio e o diretor Martin Scorsese.
ISABELA BOSCOV

AS INDICAES
Melhor filme
Melhor diretor (Martin Scorsese)
Melhor ator (Leonardo DiCaprio)
Melhor ator coadjuvante (Jonah Hill)
Melhor roteiro adaptado

     Como trainee em Wall Street, Jordan Belfort, 22 anos, casado com uma cabeleireira e recm-chegado a Nova York, fica com os olhos brilhando quando ouve falar dos bnus que os corretores tiraram no ltimo ano  300.000 dlares um, 1 milho de dlares outro. Ento vem o 19 de outubro de 1987, a "Segunda-Feira Negra". A bolsa de Nova York despenca mais de 500 pontos em um s mergulho, a empresa em que Jordan trabalha vai  falncia, e ele perde o emprego que acabou de ganhar. E, no entanto, quatro anos depois ele vai estar jogando dinheiro fora. Sem brincadeira, jogando-o fora: amassando notas de 100 e arremessando-as no lixo, atirando-as pela balaustrada do seu iate em cima dos agentes federais que tentou subornar, torrando-as com prostitutas. E tambm em quantidades de p, barbitricos e lcool que derrubariam um cavalo, em uma Ferrari branca, em orgias dirias no escritrio (de novo, sem brincadeira: orgias mesmo, na acepo da palavra), em uma manso gigantesca, ou em um diamante de noivado do tamanho de um Polenghinho para a amante, Naomi  uma vida assim veloz requer um modelo mais esportivo de mulher, claro, e Naomi (Margot Robbie), alm de loira e estatuesca, tem competncias que s em profissionais Jordan encontrou antes. No h descrio dos feitos (e incontveis malfeitos) de Jordan, porm, que d conta da eletricidade e da potncia de O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, Estados Unidos, 2013), que estreia nesta sexta-feira no pas com cinco indicaes ao Oscar. 
     Esta  a quinta parceria entre Leonardo DiCaprio e o diretor Martin Scorsese, e de longe a mais explosiva, arriscada e infernalmente divertida de todas  uma demonstrao de que certas colaboraes precisam atravessar uma fase de estabilidade e at de separao temporria para atingir a etapa seguinte, a da absoluta confiana mtua que um filme como esse requer. Durante as trs horas que essa adaptao das memrias de Jordan toma, DiCaprio sustenta um nvel de energia exaustivo e faz coisas que ningum sonhou v-lo fazer antes, muitas delas impublicveis. Um resumo editado: DiCaprio fala barbaridades (no linguajar que usa e na amoralidade do que diz), seja dentro da cena, seja dirigindo-se diretamente ao espectador ou em voice over  um recurso tpico de Scorsese. Arrasta-se pelo cho tentando entrar na sua Ferrari, trincado demais com Mandrix para se pr de p, levando a plateia s gargalhadas. Faz gestos de obscenidade inacreditvel  como na cena em que ensina o pessoal da firma a vender papis que no valem nada a clientes otrios (ou como em outras cenas de que as fotos destas pginas do uma pista). No tem, enfim, medida nem barreira. E, todo o tempo, Scorsese no s paga a aposta como joga mais fichas na mesa a cada rodada, exibindo vitalidade comparvel  de Os Bons Companheiros, de 1990, e que na fase mais recente de sua carreira s em Os Infiltrados (sua terceira parceria com DiCaprio) ele esteve perto de igualar. Essa exuberncia j est provocando certa grita: para alguns (por exemplo, os coitados que Jordan arruinou com suas tramoias financeiras), h algo de indecente em cativar de tal maneira o pblico com um personagem to abjeto. 
     Personagens abjetos, contudo, so uma das matrias-primas  a mais valiosa, talvez  de que Scorsese fez sua carreira. Do violento e desequilibrado Travis Bickle de Taxi Driver aos mafiosos de Os Bons Companheiros e Cassino, ou os gngsteres e os policiais corruptos de Os Infiltrados, o diretor teve sempre uma atrao pelos bottom feeders, como se diz em ingls  os que se alimentam do lodo, do que  srdido e podre. E Jordan Belfort no  outra coisa seno uma dessas figuras. Depois de perder o emprego em Wall Street, ele foi parar em um estabelecimento de porta dos fundos e prticas duvidosas em Long Island. Em um mecanismo que Scorsese explica muito bem, o que as grandes firmas de Wall Street vendem so as aes "blue chip": os papis valorizadssimos que s gente grande compra, e que rendem ao corretor comisso de 1%. J o que os corretores suados e amarrotados de Long Island estavam vendendo eram as "pink sheets": papis de empresas to obscuras, ou medocres, ou sem futuro, que nem chegam a entrar na cotao. As "pink sheets" valem centavos, mas rendem comisso de 50%  porque  preciso premiar o corretor que empurre esse bagao para algum (em geral gente com pouquinho dinheiro, muita iluso e zero de informao). Jordan descobre que nasceu para isso: mente com volpia, convence qualquer um de  qualquer coisa e faz chover sobre si o dinheiro que rouba de sua clientela ingnua de carteiros, motoristas de nibus e operrios. E da imagina: e se conseguisse vender essa papelada intil para os peixes grandes? Inventa uma empresa de nome pomposo  Stratton Oakmont , associa-se a um sujeito sem nenhum carter (o enlouquecido Donnie Azoff interpretado por Jonah Hill), chama uns amigos escusos para se juntar a ele e, aos 26 anos, j comprou a manso, o iate, o helicptero e a segunda mulher. E j vendeu a alma tambm, com muito gosto e sem arrependimento. 
     Graas a um levantamento realizado pela revista Variety, sabe-se que O Lobo de Wall Street  o filme recordista no uso de um certo palavro: so 506 f***s em duas horas e 59 minutos de projeo, ou 2,8 por minuto. Parte deles  dita em clima de euforia, quando o dinheiro est entrando a rodo. Outra parte  dita em estado de desespero, quando um agente do FBI (Kyle Chandler, excelente) detecta a vastido da maracutaia em que est envolvida essa falsa firma de respeito, prende o banqueiro suo da turma (Jean Dujardin, de O Artista) e encosta Jordan e seus associados na parede. Joel M. Cohen, um dos promotores que durante meses interrogaram Jordan Belfort, escreveu no The New York Times que o personagem que viu no filme , em certo sentido, exatamente aquele que conheceu: mentiroso, mitmano, megalomanaco, covarde e muito bem-sucedido em vender ao mundo (e, por extenso, a cineastas e atores, insinua Cohen) uma verso pica de sua canalhice. H espao a para uma dvida: Scorsese se deslumbrou e deixou tapear pelo vigarista  ou to somente se deslumbrou com o poder de um vigarista de tapear? As evidncias favorecem a segunda hiptese: grandes fraudadores, da mesma forma que os mafiosos e agentes da lei corruptos que o diretor tantas vezes retratou, moram no lado escuro da terra das oportunidades e so a excrescncia que s vezes brota de uma grande qualidade americana, o empreendedorismo. Se h um filme recente que se alinha com o de melhor que Scorsese fez no passado, portanto,  este aqui, sobre lobos que nem sequer se do ao trabalho de vestir pele de cordeiro. 


8#2 LIVROS  AS GAFES E AS GALHOFAS
As grandes frases da histria no so apenas aquelas que refletem a genialidade de seus autores. H tambm as que deram errado ou que nunca foram ditas, descobre-se em um novo livro.
DIOGO SCHELP

 necessrio que venham muitas mulheres rfs e de toda a qualidade, at meretrizes. - MANOEL DA NOBREGA
O Brasil no  um pas srio - CHARLES DE GAULLE
Que pas  este?  FRANCELINO PEREIRA

     A beleza das frases ditas por reis, polticos e celebridades  que, uma vez proferidas, ganham vida prpria, adquirindo significados e usos diferentes dos inicialmente pretendidos por seus autores. Ou se revelam to fiis  maneira de pensar dessas figuras pblicas que ora servem para enaltecer suas qualidades, ora para realar os seus defeitos. Uma declarao capaz de resumir um contexto histrico ou o esprito de uma era, ainda que por sua interpretao irnica,  uma prola para os pesquisadores. Quais tiradas presidenciais recentes ficaro para a posteridade? "Voc me d um exemplo do 'd c'  que eu te explico o 'toma l'", resposta dada por Dilma Rousseff a uma jornalista que questionou o fisiologismo no seu governo? Ou ''Nunca antes na histria do Brasil um presidente da Repblica tratou os mais humildes dessa maneira", um autoelogio que apareceu em uma propaganda de TV de Lula em 2006? Repetida inmeras outras vezes para situaes diversas pelo prprio Lula e seus ministros, a expresso "nunca antes..." refletia a pretenso de ineditismo do seu governo, como se o Brasil tivesse sido inaugurado quando o PT assumiu o poder. A frase passou a ser parodiada de maneira a mostrar fatos que o ex-presidente no gostaria que ficassem registrados nos livros de histria, como em "nunca antes neste  pas se roubou tanto", uma referncia ao escndalo do mensalo. 
     Por mecanismo semelhante de apropriao, pela boca do povo, de uma frase que se pretendia nobre, consolidou-se no repertrio dos brasileiros a pergunta "Que pas  este?", repetida sempre em tom de indignao e que nos anos 1980 inspirou uma msica da banda Legio Urbana. A declarao original  de Francelino Pereira, presidente da Arena, o partido da ditadura militar, que em 1976 descobriu que os cidados duvidavam dos planos do general Ernesto Geisel de iniciar uma abertura poltica. "Que pas  este em que o povo no acredita no calendrio eleitoral estabelecido pelo prprio presidente?", surpreendeu-se Pereira. O episdio est contado no recm-lanado A Histria do Brasil em 50 Frases (Leya; 464 pginas; 48  reais), de Jaime Klintowitz, jornalista com quatro dcadas de experincia, duas delas em VEJA. Ao rastrear a origem de cada uma das frases abordadas, Klintowitz encontra oportunidade para revelar o contexto e os detalhes mais saborosos envolvendo os principais acontecimentos e personagens formadores do Brasil, sem obedecer  cronologia dos fatos. Trata-se de um passeio pela histria  no a p, em que as atraes aparecem em sua sequncia natural, mas de metr, em que ao emergir de cada estao se encontra um cenrio distinto do anterior. O resultado  to dinmico que se tem a impresso de no haver melhor forma de aprender histria que por meio das frases de seus protagonistas. 
     No livro h citaes retiradas de textos cuidadosamente preparados, como a carta escrita em 1550 por Manoel da Nbrega ao rei Joo III, de Portugal, em que o padre jesuta, preocupado com a falta de mulheres brancas na colnia, pedia que se enviassem da matriz at prostitutas. Outras declaraes histricas foram improvisadas, como a de Ulysses Guimares, presidente do MDB, o partido de oposio na ditadura, quando se viu cercado por policiais e seus cachorros durante um comcio em Salvador: "Baioneta no  voto. Cachorro no  urna!". E h, por fim, aforismos que nunca foram ditos  pelo menos no pelas pessoas s quais so atribudos.  o caso de "O Brasil no  um pas srio", que ficou clebre na boca de Charles de Gaulle, apesar de ser de autoria de Carlos Alves de Souza Filho, embaixador brasileiro na Frana entre 1956 e 1964. A confuso se deu porque o diplomata fez um desabafo sobre o prprio pas a um correspondente do Jornal do Brasil em Paris quando este lhe perguntou sobre a conversa que tivera com o presidente francs a respeito de uma disputa pesqueira, a chamada Guerra da Lagosta. O editor do jornal entendeu que a frase era de De Gaulle, e assim ficou. O levantamento de Klintowitz vai s at 1992, com o impeachment de Fernando Collor. O tempo ainda precisa sedimentar o valor histrico de frases mais recentes. 


8#3 MSICA  VISLUMBRES DE ETERNIDADE
Para um filme extraordinrio, uma trilha extraordinria: A Grande Beleza apresenta ao espectador a vigorosa vertente sacra da msica religiosa contempornea.
JERNIMO TEIXEIRA

O Alm est alm, e eu no me ocupo do Alm", diz Jep Gambardella, jornalista, escritor e bon-vivant, no monlogo final de A Grande Beleza. A trilha sonora silencia exatamente nessa frase. Segundos antes, porm, as digresses de Gambardella (magnificamente interpretado por Toni Servillo) eram sublinhadas por vozes lmpidas e serenas  quase se diria: angelicais  que cantam os versos msticos de The Lamb (O Cordeiro), do poeta ingls William Blake (1757-1827). Como tantas outras peas corais compostas pelo ingls John Tavener, The Lamb  um suave convite  elevao espiritual. A mesma msica acompanha a cena em que o protagonista faz um passeio solitrio s margens do Rio Tibre e considera, pesaroso, a ftil ambio que o inflamou ao chegar, jovem, a Roma: tornar-se o "rei dos mundanos". Nas cenas mundanas  festas exuberantes, selvagens e bregas , o filme recorre  msica eletrnica da hora (incluindo o DJ brasileiro Gui Boratto). Mas, sempre que Gambardella se recolhe  nostalgia e  melancolia, o que se ouve  msica sacra. No, no Bach ou Handel, mas compositores contemporneos como Tavener  morto no ano passado, aos 69 anos , o americano David Lang, o estoniano Arvo Prt ou o russo Vladimir Martynov. Uma trilha extraordinria para um filme extraordinrio. 
     Em A Grande Beleza  vencedor do Globo de Ouro de filme estrangeiro e indicado ao Oscar na mesma categoria , o diretor italiano Paolo Sorrentino leva o espectador do grotesco ao sublime de um momento para o outro. O melhor exemplo disso  a freira caqutica e meio tant que acaba se mostrando capaz de milagres genunos. O milagre vem com msica: The Beatitudes, de Martynov, executada pelo quarteto de cordas americano Kronos,  a peca mais emocional da trilha, quase manipulativa quando entra nas cenas mais ternas. Sua prolongada repetio do mesmo tema mostra a dvida do autor com o minimalismo de americanos como Steve Reich e Philip Glass, mas tambm reflete a disciplina rgida da Igreja Ortodoxa Russa. Trata-se, afinal, de uma orao. O americano David Lang, participante de um grupo de vanguarda de Nova York chamado Bang on a Can (Batida em uma Lata), define World to Come, etrea pea para violoncelo que entrou na trilha de Sorrentino, como "uma espcie de orao, introspectiva e muito pessoal". Arvo Prt , ao lado do polons Krzysztof Penderecki (que Sorrentino deixou de fora), um expoente da msica religiosa. Nos anos 1960 e 1970, a espiritualidade foi sua forma de resistncia diante do atesmo oficial do regime comunista (a Estnia pertencia ento  Unio Sovitica). Mas a msica de Prt que entrou no filme fala no de f, e sim da saudade do torro natal  no caso, a regio escocesa das Highlands celebrada pelo poeta Robert Burns (1759-1796). "Meu corao est nas Highlands, meu corao no est aqui", diz a soprano Else Torp no refro. H um dilogo subterrneo com a existncia deslocada de Gambardella: embora imerso no luxuoso decadentismo de Roma, ele deixou seu corao num romance da juventude.  
     O CD de A Grande Beleza no est nas lojas brasileiras. Mas  fcil encontrar boas gravaes das msicas do filme nas lojas virtuais. Os compositores que figuram na criao de Sorrentino realizaram um feito raro na msica erudita contempornea: encontraram um pblico. Um dos itens da trilha, a Terceira Sinfonia, do polons Henryk Grecki, morto em 2010, at esteve nas paradas: uma gravao dos anos 1990 chegou a vender 1 milho de cpias. O crtico americano Alex Ross diz que Tavener, Prt e Grecki encontraram ouvintes porque oferecem repouso em uma era de saturao. Nos termos do memorvel monlogo de Gambardella: essa msica est entre os vislumbres de beleza que ouvimos quando o mundo silencia seu bl-bl-bl. 

MUNDANO E SACRO
Trs temas recorrentes de A Grande Beleza so de compositores contemporneos cuja obra carrega uma forte religiosidade.

My Hearts in the Highlands, de Atvo Prt
Composta sobre um poema de Robert Burns, autor escocs do sculo XVIII, esta  uma pea austera, s para soprano e rgo. Embora seu tema no seja religioso, h um elemento solene e aspiracional, como  comum na obra do compositor estoniano. Perfeito para acompanhar as errncias do heri do filme, Jep Gambardella, um jornalista festeiro, mas com sede de transcendncia.

The Beatitudes, de Vladimir Martynov
Interpretada pelo quarteto de cordas Kronos, esta pea repete uma tema meldico nico, como um mantra. Repleta de evocaes nostlgicas, a msica figura em cenas tocantes, como a de um estranho milagre envolvendo flamingos e uma freira. E volta nos crditos finais, s para garantir que o espectador saia do cinema com uma discreta lgrima.

The Lamb, de John Tavener
Simples e serena, a msica coral do compositor ingls - morto no ano passado - para o poema mstico de William Blake convida  contemplao.  a trilha que envolve Gambardella quando, passeando  beira do Rio Tibre, ele considera melancolicamente sua ambio de juventude: ser "o rei dos mundanos". Tambm acompanha o monlogo final. 


8#4 VEJA RECOMENDA
CINEMA
A GAIOLA DOURADA (LA CAGE DORE. FRANA, 2013. J EM CARTAZ NO PAS)
 Os portugueses Maria (Rita Blanco) e Jos (Joaquim de Almeida) so as pessoas mais benquistas de seu quarteiro em Paris: solcitos e competentes, mantm o edifcio em que moram impecvel (ela  zeladora e ele, mestre de obras), quebram o galho dos vizinhos e amigos, ajudam quem podem. Eis que, depois de trinta anos na Frana, eles recebem a notcia de que herdaram uma grande e muito rentvel propriedade na regio do Douro, em Portugal, incluindo-se a uma vincola.  a realizao do sonho de voltar, e bem,  terra natal. Ser mesmo? O filho e a filha se consideram franceses e no querem ir embora; Maria e Jos secretamente temem a ideia de viver sem dar duro; e, quando o segredo circula pela vizinhana, todos tentam manter ali o casal com subterfgios. Filho de imigrantes portugueses em Paris, o diretor estreante Ruben Alves aproveita sua experincia pessoal nesta saborosa comdia de costumes.

DISCO
FOREVERLY, BILLIE JOE + NORAH (WARNER)
 Formado pelos irmos Don e Phil (morto recentemente), os Everly Brothers, com suas harmonias vocais perfeitas, foram uma das duplas mais influentes do pop americano dos anos 1950 e 1960. Neste disco, Billie Joe Armstrong, guitarrista e vocalista do grupo de punk pop Green Day, e a cantora Norah Jones recriam o lbum Songs Our Daddy Taught Us, de 1958, no qual Don e Phil se voltaram para o cancioneiro folclrico americano. Embora Norah tenha mais experincia no country e no folk,  Billie Joe quem assume a voz de comando, deixando a parceira nas harmonias vocais. Com acerto, ele trocou a cantoria afetada do Green Day por uma interpretao sbria. A substituio dos vocais masculinos da  gravao original pela voz de um casal conferiu um tom sensual ao repertrio dos irmos Everly. Mais que um disco de covers, Foreverly  uma homenagem sincera  altura do talento dos Everly Brothers.

LIVRO
A IRM DE FREUD, DE GOCE SMILEVSKI (TRADUO DE MARCELLO UNO; BERTRAND BRASIL; 336 PGINAS; 40 REAIS ou 28 REAIS NA VERSO ELETRNICA)
 Em 1938, quando lhe foi permitido, graas  presso internacional, sair da ustria anexada pela Alemanha nazista, Sigmund Freud pde indicar pessoas prximas para receberem o mesmo salvo-conduto. A lista do criador da psicanlise incluiu a mulher, os filhos, um mdico  mas no as cinco irms mais novas, quatro das quais morreriam em campos de concentrao. O escritor macednio Goce Smilevski d voz, neste romance, a uma das irms esquecidas, Adolfina. Ela narra, em primeira pessoa, sua relao a princpio prxima com o irmo clebre, e o posterior afastamento dos dois. Desprezada pela me, abandonada pelo nico amante que teve, Adolfina acaba se internando em um asilo para doentes mentais.  uma reconstituio muito bem realizada da poca e da vida familiar de Freud  e o retrato que Smilevski faz do personagem histrico  corajosamente controverso. 

DVD
AMERICAN HORROR STORY - A PRIMEIRA E A SEGUNDA TEMPORADAS COMPLETAS (FOX/SONY)
 Os roteiristas Ryan Murphy e Brad Falchuk j disseram que, com American Horror Story, buscavam um antdoto ao excesso de acar em que se viram mergulhados na criao do sucesso Glee. Baseada em sexo, sustos e sangue, a srie quebrou o tabu de que o terror seria um gnero invivel na TV americana. E ainda ps em voga um formato inovador, a chamada "srie de antologia", em que cada nova temporada apresenta uma histria independente (caso do drama criminal True Detective, da HBO). Na primeira temporada  a melhor at agora , um casal em crise (Connie Britton e Dylan McDermott) muda-se para uma manso  assombrada, claro  em Los Angeles. Na segunda, a veterana Jessica Lange  a vizinha sinistra da histria anterior  converte-se na madre durona que dirige um asilo para loucos onde se praticam torturas em nome da religio (o anticlericalismo de Murphy  patente) e experincias cientficas macabras. Um horror  mas uma delcia. 

OS MAIS VENDIDOS
 Ex-estrela juvenil da Disney e ex-jurada de The X-Factor, a cantora Demi Lovato, 21 anos, foi uma adolescente problemtica: botava o dedo na goela para vomitar o que comia e costumava se cortar para "expressar a vergonha no prprio corpo", como j contou em entrevistas. No seu perodo em clnicas de reabilitao, ganhou um vcio menos destrutivo (ou, pelo menos, menos autodestrutivo): postar frases inspiradoras para seus 20 milhes de seguidores no Twitter. Est a a origem de Demi Lovato  365 Dias do Ano (traduo de Joana Faro; Best Seller; 416 pginas; 28 reais), terceiro lugar na lista de no fico desta semana.  uma espcie de dirio com muitas reminiscncias do passado sofrido e um forte componente de autoajuda. Cada um dos 365 textinhos de Demi vem com uma epgrafe bonitinha, de autores que vo de Nietzsche a Paulo Coelho, de Buda a Nicholas Sparks. No dia 20 de agosto, a citao cabe a Cinderela: "At mesmo milagres levam tempo". , Demi Lovato superou o passado, mas no nega as origens. Ainda busca sua mais profunda sabedoria na Disney. 
Bruno Meier


8#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
3- O Teorema de Katherine. John Green INTRNSECA
4- Fim. Fernanda Torres. COMPANHIA DAS LETRAS 
5- Inferno. Dan Brown. ARQUEIRO 
6- Quem  Voc, Alasca? John Green. MARTINS FONTES
7- O Lado Bom da Vida. Matthew Quick. INTRNSECA 
8- A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL
9- Deixe a neve Cair  Trs Contos Natalinos. John Green, Lauren Myracle e Maureen Johnson. ROCCO
10- Extraordinrio. R.J. Palacio. INTRNSECA

NO FICO
1- Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA
2- Assassinato de Reputaes. Romeu Tuma Jr. TOPBOOKS
3- Demi Lovato  365 Dias do Ano. Demi Lovato. BEST SELLER
4- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO 
5- Eu Sou Malala. Malala  Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS 
6- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA 
7- Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limite. Igncio de Loyola Brando. GENTE
8- O Mnimo que Voc Precisa Saber para No Ser um Idiota. Olavo de Carvalho. RECORD
9- Kardec  A Biografia. Marcel Souto Maior. RECORD 
10- Corta pra Mim. Marcelo Rezende. PLANETA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA
3- O Encontro Inesperado. Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
4- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
5- O que Realmente Importa? Anderson Cavalcante. SEXTANTE 
6- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
7- O Mtodo Dukan - Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
8- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
9- A Arte de Fazer Acontecer. David Allen. CAMPUS
10- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE


8#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  POR UNS PELOS A MAIS
     Se tudo correr conforme o esperado, frutificaro na cabea do senador Renan Calheiros ao longo da sesso legislativa que se abre no prximo ms os 10.118 fios de cabelo que lhe foram transplantados da nuca para o cocoruto, em cirurgia realizada em dezembro no Recife. Projeta-se em trs meses o prazo para que irrompam, desassombrados como brotos a forar passagem no solo, os primeiros fios. Isso ocorrer l para meados de maro. No segundo semestre j tero crescido o suficiente para fazerem diferena. Ganhar o senador no cobiado reforo  cobertura capilar. Perder o Senado. Ao vir a pblico que Calheiros viajou num avio da FAB para fazer o transplante, enfatizou-se, com justia, o escndalo que foi ter usado transporte oficial para uma atividade privada. Esqueceu-se desse outro escndalo que  um senador da Repblica submeter-se a transplante de cabelos. Renan comandar o Senado neste ano mais cabeludo, mais satisfeito com a imagem que v no espelho e tomado de renovado prazer ao deslizar o pente sobre o couro cabeludo  mas tambm mais falso e incondizente com o que se espera de um senador  
     O mundo se divide entre homens que podem e no podem fazer transplante de cabelo. Cantores e atores podem. Para alguns,  questo de sobrevivncia profissional. Polticos no podem, assim como no podem pintar os cabelos. Isso devia estar na Constituio. Como no est, eis mais um item a ser includo no rol da sonhada reforma poltica. Duas subcategorias podem menos ainda do que o comum dos polticos. A primeira  a dos que gostam de se dar ares de revolucionrios. Jos Dirceu, por exemplo. Ao se apresentar para a priso, ele fez o gesto de desafio comunista do brao levantado e do punho fechado. Meses antes, havia se submetido a um transplante de cabelos, por sinal com o mesmo doutor Fernando Basto que atendeu Renan e  o preferido dos polticos. Difcil imaginar Che Guevara marcando hora com o doutor Basto, ao descer da Sierra Maestra. 
     A outra categoria  a dos senadores. Transplantar ou pintar cabelos  algo que se tornou epidmico entre os polticos brasileiros. Alguns transplantam e, ainda por cima, pintam. Se tal prtica j  preocupante em deputados, ministros ou governadores, mais ainda se torna entre senadores. O Senado, por definio,  o local dos mais velhos, e, por isso mesmo, dos que se supem mais experientes e mais sbios, entre os encarregados de zelar pela ptria. A palavra tem a mesma raiz de senhor, de senhorial, de senhoril, de snior, e todas remetem  austeridade,  prudncia e  sensatez identificadas com o passar dos anos. Ora, pintar ou implantar cabelos , antes e acima de tudo, um ardil destinado a falsear a idade.  portanto tentar dar um drible na senhoria, na senioridade e na senhorilidade em que repousa a prpria ideia de Senado. Senador que pinta ou transplanta o cabelo fere o princpio fundador da instituio a que pertence. Com isso, entra em conflito com ela, apequena-a e desmoraliza-a. 
     Na conhecida crnica "O velho Senado", Machado de Assis recorda os senadores que conheceu como jovem reprter, em 1860: "Uns, como Nabuco e Zacarias, traziam a barba toda feita; outros deixavam pequenas suas, como Abrantes e Paranhos, ou, como Olinda e Eusbio, a barba em forma de colar; raros usavam bigodes, como Caxias e Montezuma". No h sinal de pelos falsificados em nenhum dos velhos polticos que desfilam pela memria de nosso grande romancista. O marqus de Itanham ele lembra que usava cabeleira, mas isso naquele tempo, em vez de trair a tentativa de parecer mais jovem, tinha o efeito contrrio. Itanham usava cabeleira porque, sendo o mais velho da casa, ainda cultivava um hbito do comeo do sculo. 
     Visto de hoje, o Senado de 1860 tinha muitos defeitos, a comear por se constituir num reduto de senhores de escravos, legislando num pas escravista. Mas era integrado por cavalheiros que assumiam o carter snior, senhoril e senhorial inerente ao cargo. Outro grande escritor brasileiro, Mrio de Andrade, calvo notrio e precoce, j aos 30 anos, escrevia: "Muito de indstria me fiz careca / Dei um salo aos meus pensamentos". Que ningum se sinta ofendido, afinal h transplantados e transplantados, mas pela lgica do poeta, ao qual adere o colunista com o entusiasmo de irmo em cocoruto abandonado  prpria sorte, Renan Calheiros fez o contrrio: estreitou os cubculos pelos quais vagueiam seus pensamentos. 


